Fundação Padre Albino Hospital Emílio Carlos Hospital Padre Albino
Mauro Assi 31/08/2026

A cada eleição, a saúde ocupa lugar de destaque nos discursos. Os candidatos prometem reduzir filas, ampliar o acesso a especialistas, modernizar hospitais, fortalecer a atenção básica e oferecer um atendimento mais digno à população. Tudo isso é necessário. Mas há uma pergunta que raramente aparece no centro desse debate: quem fará tudo isso acontecer?
No Estado de São Paulo, essa resposta passa, inevitavelmente, pelos hospitais filantrópicos, instituições cuja relevância é lembrada neste mês, em 15 de agosto, com o Dia Nacional das Santas Casas de Misericórdia. Dos 1.117 hospitais existentes no Estado, 407 são entidades filantrópicas, mais do que os equipamentos públicos (321) e do que os privados (389). Em 143 municípios paulistas, representam a única estrutura hospitalar disponível para atender a população. Quando se observa a assistência prestada pelo Sistema Único de Saúde, sua participação também é expressiva: em 2025, essas instituições responderam por 50,38% dos atendimentos e procedimentos hospitalares realizados pelo SUS no Estado, superando a própria rede pública, responsável por 49,27%.
Esses números ajudam a explicar uma realidade que milhões de paulistas vivenciam diariamente, muitas vezes sem perceber. São as Santas Casas e os hospitais beneficentes que acolhem gestantes, recebem vítimas de acidentes, realizam cirurgias e transplantes, oferecem tratamento oncológico, atendem pacientes cardiovasculares, mantêm leitos de alta complexidade e garantem assistência onde, muitas vezes, não existe outra alternativa.
Embora sejam instituições privadas sem fins lucrativos, desempenham uma função pública incontestável. São parte da estrutura que sustenta o SUS e tornam possível o atendimento de milhões de pessoas todos os dias.
O problema é que essa parceria se tornou cada vez mais desigual. A demanda cresce com o envelhecimento da população, o avanço das doenças crônicas e a incorporação de tecnologias cada vez mais sofisticadas. Os custos da assistência aumentam continuamente. Ao mesmo tempo, muitos hospitais convivem com remunerações historicamente defasadas, insegurança financeira, dificuldade para investir em infraestrutura, renovar equipamentos, incorporar inovação e atrair profissionais.
Apesar disso, continuam funcionando. Não porque a conta feche, mas porque existe um compromisso construído ao longo de décadas com a população e com o SUS.
É justamente por isso que a filantropia hospitalar precisa deixar de ser lembrada apenas em momentos de crise. As Santas Casas e os hospitais filantrópicos devem ocupar espaço permanente nas políticas públicas, no planejamento da rede assistencial e nas decisões estratégicas sobre o futuro da saúde.
Nos últimos anos, houve avanços importantes. A criação da Tabela SUS Paulista representou um passo relevante ao reconhecer parte da defasagem histórica do financiamento da assistência. Neste mês, a sanção de lei federal que retomou a utilização de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em linhas de crédito destinadas a hospitais filantrópicos, Santas Casas e demais instituições sem fins lucrativos que atendem ao SUS, prorrogando o acesso até 2030, abriu uma nova possibilidade de financiamento para investimentos e modernização dessas estruturas.
São iniciativas importantes. Mas ainda insuficientes diante da dimensão do desafio. Não basta reconhecer a importância desses hospitais em discursos. É preciso construir um ambiente que lhes permita continuar cumprindo sua missão. Isso significa garantir previsibilidade, aperfeiçoar os mecanismos de financiamento, fortalecer programas que valorizem a produção assistencial, estimular investimentos e estabelecer uma relação baseada em planejamento de longo prazo, e não em soluções emergenciais.
Também significa compreender que investir na sustentabilidade dos hospitais filantrópicos não beneficia as instituições; beneficia, sobretudo, os pacientes. Cada hospital fortalecido representa menos deslocamentos, mais acesso, menor tempo de espera, maior capacidade de resposta às urgências e mais segurança para quem depende exclusivamente do SUS, que, inclusive, é a maior parcela da população brasileira.
A saúde pública não será transformada apenas por novos programas ou novas promessas. Será transformada pela capacidade de fortalecer continuamente quem já sustenta diariamente uma parcela significativa dessa assistência.
A eleição oferece uma boa oportunidade para discutir o futuro. Mas que ela também seja uma oportunidade para enxergar aqueles que, há décadas, mantêm as portas abertas todos os dias, independentemente das circunstâncias.
Os hospitais filantrópicos não pedem privilégios. Pedem condições para continuar fazendo aquilo que sempre fizeram: cuidar das pessoas.
E cuidar deles é, antes de tudo, cuidar do próprio SUS.
Edson Rogatti
Diretor-presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo (Fehosp)
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